segunda-feira, 13 de abril de 2015

Noturno 2

                                     
NOTURNO 2



A noite prossegue suja
no céu as caravelas lutam contra a maré
de estrelas
amareladas

no coração o som frio
do aço contra a pele
tudo tão distante e dolorido

as casas os homens os tanques de guerra
passeiam o meu corpo dos pés aos ouvidos

todos se agitam para a primavera

domingo, 12 de abril de 2015

Nascimento


                                       NASCIMENTO


O corpo que cai não é menos absurdo
nem menos triste

O corpo que cai não é menos tolo
nem menos belo

O corpo que cai também não é mais nada

com palavras escritas sob a pele
com relógios e bússolas hesitantes
com rotos gestos de paródia

a matéria eterna se lança da janela das possibilidades
e cai na calçada em chamas

absurdo tolo belo triste
e mais nada

sábado, 11 de abril de 2015

O Nome



Até tendo manter meus braços abertos
oh coro inacessível dos homens que veem

reconheço vossos labirintos
compartilho do vosso pão
mas não compro esse vinho

sob meus escombros não nascem girassóis

e por trás dos meus olhos
a cidade em pânico espera

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Soneto




Me espreita arranhando telhados
dou voltas e voltas com meu corpo em chamas
degola de toda calma gritar com os dedos
gritar pelas pedras pelas tintas pelas cores

a vontade passa quando há claridade
quando consigo ver teu corpo desaparece
teu peito branco como um pesadelo
teus olhos negros como a pele que me esconde

sempre há flores no jardins da culpa
seus matizes doem os olhos até a nuca
num corte abaixo pressinto a lama

amar e morrer viciar-se na sinuca
a voz cresce como pelos e machuca
disfarçada no teto uma vícera te chama

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Contra-Reforma

                             
  CONTRA-REFORMA



Quando os olhos se abriram
não havia mais nada

haviam levado as colchas a memória dos óbitos
predarias crianças futuras
e o fino bordado de um lábio franzido
num beijo que esperava atrás da porta

Quando finalmente arejaram a sala
perceberam que não havia mais nenhuma menina
olhando por longos minutos a parede borrada onde havia um rosto

Me pergunto se teriam encontrado um cordão ou um grão
que desenhasse os passos de dança
ou que contasse a história dos sorrisos

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Cinelândia


Cinelândia


Cidade de poros
sob os pés dos edifícios

triste fauna triste flora
de concreto de tábua
animais de aço auto motivados
pela secura

Cidade mucosa
atropelas tua língua na brisa dos cruzamentos

um senhor observa
absorve suas telas
os leds das tuas favelas

observa tua viva fonte severa
de uma nova cidade
no iluminar de uma treva

carregavam o corpo sob um holofote
tão frio
depuseram o peso dos pelos sobre o chão
tão frio

mas os olhos dos ônibus não tem lágrimas ou interesse

só uma menina na contempla da janela
o espetáculo da poeira de todo o dia
de todos os dias a cor e o perfume
dor e costume que um vestido escondia

um dia serei grão e rolarei docemente
sob os véus e sobre a pele
do teu corpo dormente

terça-feira, 7 de abril de 2015

ALEPH





A pequena esfera encerra cores absurdas
os hieróglifos invisíveis das palmas
revesou seu significado entre moedas e sentenças
também foi o presente para alcelmos e dirceus

continuou no mundo por obrigação de matéria
continuou a vista por força da circunstância
sua substância tênue resvalou a sarjeta e inúmeras fogueiras
inconsciente é claro de seu destino e história
tal qual seus companheiros
na plateleira do antiquário