domingo, 9 de agosto de 2015

I




I


Peça ao taxista para te deixar no cruzamento
peça
caminhe voluntariosamente
de encontro
ao fluxo
violeta minueto de buzinas
longe da praia
ainda se ouve
a moça cantar

um jovem casal foi assassinado esta manhã
no Maranhão
em Porto Rico
em São Cristóvão
meus olhos estão cheios de imagens
cheios da letra da página do assunto da esquina
da cólera





terça-feira, 4 de agosto de 2015

Fala






Fala



Você fala
e
na verdade
eu baixo os olhos
aqui de camisa catraca e sinal fechado
vacilo no verbo
imperativo
me escondo
insujeito
sujeitado
na cama estreita
vejo um luar de vidro
ouço o vento pelas frestas
ouço um grito
lá longe
entre outras pernas




quinta-feira, 30 de julho de 2015

Estátua e Número





Estátua e Número


Danço e aceno
um movimento leve
de cabeça
vorazes intenções
a música insinua um passo
pasteurizado
contínuo
e é como se não houvesse
subo um lance de escada
lanço uma carta
tudo perdido
entre os nomes das camisetas
selva de calças
sumindo
antecedo o toque a troca
o zíper
tento mais um passo
a marcha me espanta
calcifico




sábado, 18 de julho de 2015

Morada




Morada




Restos da festas  invisíveis na ardósia
o que passou nos afoga
sem remédio

cubro as paredes internas de cinza
descobri
recentemente
que não preciso de respostas

em ritmo desarmonioso
se alinham as construções no tempo
temos em comum
com os alicerces
a destruição

fale comigo
qualquer dia desses
vou te mostrar um tufão frígido
esse lar que eu conheço





quarta-feira, 8 de julho de 2015

Lápis




Lápis



O lápis
arisco lento
lasca e fere a página parcialmente branca do caderno
e então um verso
fratura língua
incorreção

uma flor impura
nasceu num canto da sala
inventaram muitos nomes para esquecê-la
porém o perfume patina e rodopia
sem respeito
cantando canções de dor

e os caminhões atropelam artistas em decadência
fenômeno que pode ser claramente observado
pela fadiga azul
da televisão




sábado, 4 de julho de 2015

Poema do Sol






Poema do Sol


Poderia ter chovido a tarde toda então eu teria
um poema aconchegante
diplomático
para te oferecer com biscoito e café
no entanto
fez um Sol vitorioso
e minha cabeça era um campo de guerra
mesmo
enquanto estive sentado
com os olhos por cima do milharal
de outras cabeças melhores
ou
talvez
tão impudicas quanto

tenho um estoque limitado
primitivo
de mentiras para por na escrita
em compensação tenho muitas verdades

que não merecem ser lidas






quarta-feira, 1 de julho de 2015

Soneto Infinito




Soneto Infinito




De repente
você hesitou
e eu já estava na contramão
desde o cruzamento anterior

da
vontade à voz
tudo se partindo
sem remédio e sem fim

encontrei o perfume ainda no frasco
pouco antes de atingir a pele
e tornar público

quebras de perspectiva espaçonaves pavões
glossário manchado do frio pavimentado
na estrada federal