sexta-feira, 10 de abril de 2015

Soneto




Me espreita arranhando telhados
dou voltas e voltas com meu corpo em chamas
degola de toda calma gritar com os dedos
gritar pelas pedras pelas tintas pelas cores

a vontade passa quando há claridade
quando consigo ver teu corpo desaparece
teu peito branco como um pesadelo
teus olhos negros como a pele que me esconde

sempre há flores no jardins da culpa
seus matizes doem os olhos até a nuca
num corte abaixo pressinto a lama

amar e morrer viciar-se na sinuca
a voz cresce como pelos e machuca
disfarçada no teto uma vícera te chama

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Contra-Reforma

                             
  CONTRA-REFORMA



Quando os olhos se abriram
não havia mais nada

haviam levado as colchas a memória dos óbitos
predarias crianças futuras
e o fino bordado de um lábio franzido
num beijo que esperava atrás da porta

Quando finalmente arejaram a sala
perceberam que não havia mais nenhuma menina
olhando por longos minutos a parede borrada onde havia um rosto

Me pergunto se teriam encontrado um cordão ou um grão
que desenhasse os passos de dança
ou que contasse a história dos sorrisos

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Cinelândia


Cinelândia


Cidade de poros
sob os pés dos edifícios

triste fauna triste flora
de concreto de tábua
animais de aço auto motivados
pela secura

Cidade mucosa
atropelas tua língua na brisa dos cruzamentos

um senhor observa
absorve suas telas
os leds das tuas favelas

observa tua viva fonte severa
de uma nova cidade
no iluminar de uma treva

carregavam o corpo sob um holofote
tão frio
depuseram o peso dos pelos sobre o chão
tão frio

mas os olhos dos ônibus não tem lágrimas ou interesse

só uma menina na contempla da janela
o espetáculo da poeira de todo o dia
de todos os dias a cor e o perfume
dor e costume que um vestido escondia

um dia serei grão e rolarei docemente
sob os véus e sobre a pele
do teu corpo dormente

terça-feira, 7 de abril de 2015

ALEPH





A pequena esfera encerra cores absurdas
os hieróglifos invisíveis das palmas
revesou seu significado entre moedas e sentenças
também foi o presente para alcelmos e dirceus

continuou no mundo por obrigação de matéria
continuou a vista por força da circunstância
sua substância tênue resvalou a sarjeta e inúmeras fogueiras
inconsciente é claro de seu destino e história
tal qual seus companheiros
na plateleira do antiquário

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Jack White e Wanda Jackson: cute!



confesso que ainda estou triste com o fim do TWS, mas o JW sempre arranja um jeitinho de não me deixar tão choroso, como esse projeto com a Wanda Jackson.
confesso que nunca tinha ouvido bulhufas dessa senhorinha antes do Jack ressuscitá-la,
mas acho que essa é a intenção dele, né?


e esse vídeo é muuuuito fofo!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Mahalia Jackson - Amazing Grace



provavelmente essa é a mais bela voz que eu já ouvi.
numa das mais belas canções já escritas.
isso mostra como a fé é um sentimento bonito,
quando não deturpado pela feiúra das mesquinharias dos que a tentam manipular.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

comendo diários

Ah! Como eu queria um dia qualquer. Pra não respeitar os pais de Judite. Pra engolir a seco, pra testar minha sorte, pra conseguir qualquer coisa ilícita, suja, sublime.
Um dia tolo de verão ou primavera. Que você não estivesse junto, eu compreendo, eu sempre te vejo a tarde, jogado sobre as coisas inúteis que você sabe o nome, que só você sabe o nome. Eu te vejo três noites por semana, compreendendo o que eu digo, sem conspirar contra as minhas palvras, sem repetir meus desejos, ou talvez somente para si mesmo, nessas mesmas noites assistindo o futebol.
Caindo na rede dos inimigos do vento.
Vendendo mentiras e rindo das tolices.
Comprando peixes num domingo; talvez sejam dias irreais aqueles que me visto de missa e caminho, quase noitinha com minha melhor amiga, quase na praia, quase nas coisas, quase mortos. Ou então a realidade rasgada da tranquilidade desses dias corrompa  o pesadelo negro dos demais.
Não há nada para dizer sobre outros dias,que são de calendário, de muita gente, de muito ódio. Alguém me disse que não há nada para dizer sobre dia nenhum, a não ser que passam bem rápido, e que a maioria quer assim. Mas as maiorias são estúpidas.
Preciso de um decreto contra o dia-contagotas, contra o dia-semportas, preciso de dias que respirem janelas e inspirem velhinhas.
Preciso de dias com menos girassóis, com menos espinhos, com mais camaradas.
Há algo estranho sobre os outros dias: eles são dias demais.